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quarta-feira, 7 de maio de 2014

Típicos de humanos - Lúcia Gomes



Lúcia Gomes não descansa, e no transcorrer dos dias e noites sua percepção aguçada ultrapassa as paredes de pedra e carne para nos trazer, da profundeza dos afetos, proposições de simplicidade fervorosa e pujante. Sim, nada mais potente que a naturalidade de um dia qualquer, da vida, dos caminhos ordinários que nos levam ao trabalho, à escola, ao passeio.

E é nesse momento e nesse lugar, quando outros olhares querem algo para além das montanhas, que ela nos obriga a ver a vida e a beleza que se encerra em cada coração, em cada gesto e olhar, sem pressa, mas sem perder tempo, como nos sugere Saramago.
E assim é Típico de Humanos, uma performance que não fica em si mesma, que vai ao Homem e propõe a abdicação da zona de conforto, que convida à ação, sem ensaios ou roteiros, sem combinações. É estar lado a lado, é o toque leve, o sorriso como um presente; é o ser simplesmente, e viver em plenitude para o que se foi criado, para o amor e o amado.

Brasileira e amazônida, 47 anos, artista desde sempre, militante pela paz e pela igualdade, Lúcia Gomes é protagonista de sua própria vida, e vem imprimindo em sua trajetória aspectos singulares de proceder dentro do campo da arte, denunciando desmandos e dirigindo sua voz a todos sem distinção. Ela acredita na revolução da educação – por isso faz arte!

Desde os anos 1990 propõe reflexões por meio de desenhos, pinturas, objetos, esculturas, performances e instalações, participando de projetos e exposições no Brasil e no exterior mergulhando sempre nos aspectos políticos do viver e deixar viver, nos dizendo que o respeito e a valorização à vida e ao meio ambiente é o único caminho para a salvação. Vive e trabalha em Santo Gallo, na Suíça.

Maria Christina
Primavera de 2014
















sexta-feira, 18 de abril de 2014

Octávio Cardoso por Ernani Chaves





Na vazante, as varas fincadas, em geral pelo próprio pescador, varas que ele mesmo fez, aparecem quase inteiras. É o curral. No Marajó, uma palavra comum, num universo, no qual animais e peixes são o alimento principal. O curral diz muito de uma cultura de águas, como é a da grande ilha na foz do Amazonas. Uma cultura que ainda é, em grande parte, da partilha, do gesto comunitário da divisão, da palavra empenhada, do aprendizado de um ofício, de uma ocupação, de um trabalho baseado na confiança que se estabelece entre um mestre e um discípulo. O mestre, no caso, conhece cada estrela no céu, cada movimento da maré, cada cardume em aproximação. Não só isso: ele também conduz sua embarcação, que pode ser uma pequena canoa ou um barquinho maior. Assim sendo, o trabalho do pescador não é só manual, como pensamos. Implica também numa sensibilidade para o movimento da maré, para a direção do vento, para o sabor da água, um conhecimento aprendido com a natureza. O curral é construído, sem dúvida, para dominar a natureza, para fazê-la curvar-se aos imperativos de nossa sobrevivência. Mas, este domínio é ainda o resultado de uma conversa, de um diálogo, de uma espécie de compadrio, de pacto, por meio do qual, ambos, homem e natureza, podem ainda conviver juntos. 

Na imagem de Octavio Cardoso, da série “Silêncio”, podemos acompanhar essa relação entre homem e natureza no universo da pesca em quatro planos, atravessados por nuances de azul. No primeiro, a vazante; não é qualquer água, mas a da vazante, que deixa à mostra a lama, as pedras e o que ainda existe de vegetação. Neste primeiro plano, o domínio da água, de uma corrente intensa e forte, que leva na direção da baía, para longe da margem, o que constitui o perigo da vazante. No segundo, um sinal de vida vegetal, como se fosse um conjunto de braços em súplica, dirigidos ao céu, vida que teima em aprofundar suas raízes na lama. No terceiro, avançando para o rio, para a baia, em direção às águas fundas, o curral, na sua formação mais clássica, o corredor que, ao final, se abre numa espécie de retângulo –prisão, no qual as varas fincadas são hermeticamente atadas umas às outras, para impedir qualquer fuga. O quarto, ao fundo, a fímbria da mata, mancha verde, nas diversas tonalidades de verde (quisera eu poder relembrar aqui todas as nuances do verde, que Benedito Monteiro recriou em seu Verde vagomundo).

Mas, talvez, o curral, o terceiro plano, seja aquilo que Barthes chamou de “punctum”, encontro de vida e morte, de florescência e desvanecimento. Como o azul que acompanha essa imagem e essa série. Azul que não é nada celestial, nada consolador, nada metafísico, nada idealizador. Azul que Octavio diz atravessado por um silêncio. Advertência que, entretanto, não pode nos impedir de ouvir o ruído das mãos rudes, cheias de calos, daquele que ali fincou essas varas e que depois voltará, para daí retirar o pão. Do ruído de seus pés, sujos de lama, entrando na água, à frente de seus ajudantes, daqueles que um dia deverão recriar seu ofício. À frente, altivo, como sabem ser os caboclos marajoaras. A ausência da figura humana nesta imagem é menos a constatação da ausência, do que o indício, alegórico, das vidas humanas que estão em jogo nela.




Por Ernani Chaves: Doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo. Professor da Faculdade de Filosofia e Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal do Pará, Professor Permanente do Programa de Pós-Graduação em Antropologia e Colaborador no Programa de Pós-Graduação em Psicologia, ambos na UFPA.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Arte educação, agrupamentos indígenas e norte do país: Entrevista com Ednaldo Britto.

Entrevistamos o paraense/paulistano Ednaldo Britto. Arte educador e técnico em gestão cultural da Fundação Curro Velho em Belém. Ele nos fala um pouco de suas experiências e reflexões a partir de uma visão mais crítica acerca da relação entre arte educação, cultura indígena e cultura visual. Tendo como referência as viagens que realiza à alguns agrupamentos indígenas no estado do Pará.   


1.Oi Ednaldo. Primeiramente, gostaríamos de agradecer por ter aceitado o convite para a entrevista. Em segundo lugar, queremos que fales um pouco sobre essa relação entre Arte Educação (ou Artes Visuais) e cultura indígena, especificamente, no Norte do país. Isso, pensando na relação que as instituições artísticas mantêm com a cultura desses povos.

Para iniciar nosso diálogo, proponho que a relação seja entre o ensino de arte e as culturas indígenas. Ensino de arte por tratar-se do termo empregado oficialmente para designar a área do conhecimento arte no âmbito da educação escolar e culturas indígenas pelo fato de que existem hoje no Brasil cerca de 220 etnias oficialmente reconhecidas pela Fundação Nacional do Índio, cada qual com sua língua, cosmologia, arte, economia e relações sociais específicas.

A ausência de conteúdos referentes às culturas indígenas na maioria das publicações sobre Arte Brasileira é um dado que nos ajuda a compreender o grau de fragilidade e superficialidade de tal relação. Ainda hoje, são raros os livros didáticos onde podemos encontrar informações consistentes e acessíveis sobre a produção da arte indígena no Brasil. Isso mostra que a maioria das editoras ainda se orienta pela ultrapassada concepção de que a história da arte no Continente Americano teve início somente a partir da chegada dos primeiros colonizadores e que a produção de arte indígena contemporânea é irrelevante e meramente artesanal. Um equívoco corriqueiro reproduzido, inclusive, por muitos professores de arte.

Na região norte, lugar onde habita o maior número de etnias indígenas no Brasil, as “instituições artísticas” costumam lidar com o assunto de maneira bastante protocolar, realizando apenas, esporadicamente, exposições repletas de imagens de índios com traços mongolóides, cocar, arco e flecha; estereótipos que reforçam ainda mais o preconceito às etnias que não correspondem a esses padrões.




Fotografia: Walter Figueiredo/Fundação Curro Velho. 

2. Há pouco tempo você fez uma viagem para a comunidade Kikretum (índios Mebengokré, no sul do Pará), podes nos descrever o objetivo dessa viagem?

Na condição de Técnico em Gestão Cultural da Fundação Curro Velho, ligado à Diretoria de Extensão do órgão, repondo pelo trabalho de articulação, programação e acompanhamento de ações junto às etnias indígenas do Estado.

O trabalho com os Mebengokré, planejado a partir de uma perspectiva da comunidade Kikretum, consiste, inicialmente, na realização de Intercâmbio Étnico-Cultural, comercialização de objetos de arte e artesanato e realização de uma série de eventos para divulgação da cultura Kayapó. Trabalho que vem sendo realizado com a cooperação e acompanhamento das Coordenações Regionais da FUNAI de Tucumã e Marabá.

3. Proposições artísticas atualmente vêm explorando temas ligados à alteridade, ao convívio e a vivência, onde, inevitavelmente tem-se de lidar com choques culturais, ideológicos e estéticos. Na sua prática nos locais visitados, como se dá a aproximação, como que ocorrem as trocas simbólicas?
De um modo geral, a interlocução com as etnias ocorre a partir de um primeiro contato com lideranças indígenas que estejam em trânsito pela sede dos municípios do Estado, em contato com as prefeituras ou com a FUNAI, posteriormente há um diálogo direto com os caciques para que sejam autorizadas visitas as aldeias.

As tensões que podem surgir durante os primeiros encontros são em pouco tempo substituídas por uma receptividade bastante afável, expressa por gestos e diálogos muito francos e objetivos.

As Trocas Simbólicas, de acordo com o conceito proposto por Claude Levi Strauss, realmente se constituem mais significativamente no plano metafórico/simbólico do que na dimensão da simples troca material.





Fotografia: Walter Figueiredo/Fundação Curro Velho. 

4. Imaginamos que haja um choque inicial. Fala um pouco de como se dá o processo de adaptação de vocês à realidade deles, relativo ao tipo de alimentação, local para dormir, comunicação, costumes, gestos, etc.
Pesquisadores e indigenistas importantes como os irmãos Villas-Boas, Darcy Ribeiro, Sydney Possuelo e Aziz Ab’Saber foram responsáveis pela publicação de documentos e estudos científicos que se tornaram fontes de conhecimento sobre a realidade dos povos indígenas que habitam o território nacional.

Sendo assim, antes de nos deslocarmos até uma aldeia ou comunidade indígena procuramos obter o máximo possível de informações sobre a etnia que será visitada, suas condições ambientais e materiais.

Para exemplificar melhor como a questão da adaptação ocorre, podemos, com alguns adendos, comparar as visitas que realizamos a uma aldeia indígena com uma viagem para o exterior. Nas aldeias onde o contato com os não-índios ocorre de maneira intermitente, a preservação da língua original e dos costumes tradicionais nos coloca na condição que se assemelha à de estrangeiros que não dominam profundamente o idioma local e desconhecem, em parte, as regras sociais. Embora sejamos todos brasileiros.



Fotografia: Walter Figueiredo/Fundação Curro Velho. 


5. Como ocidentais, sempre estamos infelizmente, imprimindo nossos discursos sobre os do indígena. Nessa tua viagem mais recente, qual percepção tivestes da imagem que eles tem de nós?
Acredito que, de um modo geral, ainda somos vistos como invasores que ocupam suas terras e destroem suas culturas.

Um exemplo muito claro de como a nossa sociedade ainda se comporta como colonizadora e destrutiva pode ser encontrado nas aldeias Jeju e Areal dos índios Tembé de Santa Maria do Pará, município que fica a pouco mais de duas horas de viagem do centro de Belém. Cercados por fazendas e pequenos sítios particulares, os Teneteharas, como se autodenominam, vivem um verdadeiro martírio em busca da reconstrução de suas identidades e do reconhecimento de suas terras.
Podemos falar de outros casos como o dos grandes grupos de Avá-Canoeiros que habitavam as serras de Goiás e que hoje estão reduzidos a 16 indivíduos; dos Guaranis vivendo como indigentes no Mato Grosso; dos Ianomâmis ameaçados por garimpeiros em Roraima; dos Munduruku no Pará em luta contra a construção de novas barragens e hidrelétricas; dos Tupinambá tratados por muito tempo como invasores de terras na Bahia.

Sendo assim, infelizmente, ainda somos uma ameaça.



Fotografia: Walter Figueiredo/Fundação Curro Velho. 

6. Participastes de algum tipo de ritual ou pudestes assistir algum cerimonial?
Pude presenciar em visita à aldeia Kikretum, como os Mebengokré/Kayapó apreciam o exercício da “boa fala” realizada na “Casa dos Homens”.

Entre os Kayapó as questões coletivas ou políticas, são tratadas, quase que exclusivamente pelos indivíduos do sexo masculino, num imenso espaço localizado no centro das aldeias conhecido como “Casa dos Homens”.

Nessas verdadeiras ágoras contemporâneas o exercício da fala ou do discurso público é realizado durante horas de maneira profundamente sóbria e altiva. Nada é gravado ou registrado, mas o que permanece na consciência dos participantes é de uma força moral impressionante.



Fotografia: Walter Figueiredo/Fundação Curro Velho. 

7. Sabemos que os Munduruku (entre outros agrupamentos) têm objetos de culto e sabendo do interesse de compra daqueles que vem de fora, eles fabricam objetos de "culto" para venda. Tens alguma informação de como se dá esse mercado?

Sim, não apenas os Munduruku comercializam seus objetos, várias outras etnias também desenvolvem tal prática, sempre numa proporção menor que o comércio de santos, ícones e ex-votos praticado pelos não-índios, com quem aprenderam os fundamentos da economia monetária.

Descrito de maneira mais detalhada por Darcy Ribeiro, em sua tese sobre a Transfiguração Étnica, esse tipo de apropriação de hábitos e costumes não integra ou transforma os índios em não-índios, como se imaginou no passado. O que ocorre é que os indígenas modificam alguns de seus hábitos movidos pela necessidade de se adaptarem a outras realidades.

A cena marcante, registrada na década de 80, do cacique Mario Juruna utilizando um gravador para registrar as promessas feitas pelos políticos em Brasília exemplifica muito bem esta questão.


8. No Paracuri, bairro onde encontramos a maior parte das olarias (locais que produzem objetos de cerâmica) em Icoaraci (PA), percebemos em vasos, grafismos indígenas sendo substituídos por brasões de times de futebol. Consegues perceber esse tipo de estratégia mercadológica nas comunidades que visitas?

Ainda não me deparei com esse tipo de situação em nenhuma aldeia indígena, mas acredito que possa existir.

Entre os Kayapó a grande oferta de matéria prima e a praticidade provocaram a substituição das sementes e fibras naturais que empregavam na confecção de adornos pessoais por miçangas e barbantes industrializados. Porém, tal substituição, que a priori pode ser entendida como algo negativo, foi realizada com tanta maestria técnica e estética e incorporada de maneira tão veemente à cultura Kayapó que temos dificuldades para identificar algum traço de superficialidade ou inautenticidade que desqualifique tal produção.

Em Icoaraci, ao contrário do que ocorreu com os Kayapó, a substituição dos grafismos inspirados na tradição marajoara por símbolos de clubes esportivos se deu como parte de uma estratégia para ampliar a comercialização das peças, o que é de fundamental importância para as dezenas de famílias que sobrevivem do artesanato na região.

Além do mais, Icoaraci já não desfruta do privilégio de abrigar nenhuma aldeia indígena, pois entre nós belenenses a presença indígena, que outrora foi imensa, agora se resume a uma exígua sala de exposições no Forte do Presépio, símbolo da colonização, e no diminuto Memorial dos Povos, símbolo do abandono.


Mais informações:

Blog Arte Pesquisa e Ensino
http://artepesquisaensino.blogspot.com.br/

Fundação Curro Velho
https://www.facebook.com/FundacaoCurroVelho



segunda-feira, 1 de abril de 2013

Projeto LAB VERDE seleciona cinco artistas para a residência artística na Amazônia


Projeto LAB VERDE seleciona cinco artistas para a residência artística na Amazônia

Labverde
Na foto, a intervenção de Lan Art Bleeding Trees, de Alfred Bradler, no parque natural de Habichtswald, Áustria (divulgação)
O meio ambiente como elemento fundamental do trabalho de arte é o conceito por trás do projeto LAB VERDE: Experimentações Artísticas na Amazônia. Idealizado pelo grupo Manifesta Arte e Cultura, o programa irá selecionar cinco artistas para a realização de intervenções na Reserva Florestal Adolpho Ducke, na cidade de Manaus. em sua primeira edição. A convocatória pública, disponível através do site www.labverde.com.br, tem inscrições gratuitas abertas até o dia 13 de abril.
Os artistas selecionados serão orientados por uma equipe de especialistas nas áreas de Biologia, Artes e Arquitetura, e receberão três mil reais para produção de obras, além de uma viagem a Manaus para um período de residência na Reserva Florestal. Além da experiência na Reserva, o programa irá realizar o seminário LAB VERDE: Interações entre Arte e Meio Ambiente, em parceria com a Universidade Federal do Amazonas, e fará a edição de uma catálogo, disponível para download.
Realizado pela Manifesta Arte e Cultura, o projeto é uma parceria com Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Prefeitura de Manaus e Museu da Amazônia (Musa), Casa de Cultura Digital, e patrocínio da Fundacao Nacional de Arte (Funarte), através do programa Rede Nacional Funarte de Artes Visuais.
Saiba mais:

quinta-feira, 7 de março de 2013

Sustentalab...hummmmm


Um site legal que me indicaram pra passar o olho e achei legal compartilhar, agora vai de quem quiser arregaçar as mangas pra botar em prática essas boas idéias.

Laboratório de inteligência em redes digitais. 

A SustentaLab é um laboratório de inteligência em engajamento e redes digitais, que desenvolve e compartilha modelos, técnicas e processos que potencializam o alcance e a efetividade de campanhas e projetos sociais orientados pela sustentabilidade.

http://sustentalab.com.br/



quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Orlando Maneschy e uma Belém selvagem como caixa de Pandora

Nosso querido colega e co-fundador/mantenedor do coletivo Novas Medias!? Ricardo Macêdo fez uma entrevista para o "Atelier 397" que vale à pena visitar. Entrevistou o também querido Orlando Maneschy. Um documento crítico e bem interessante sobre o percurso do trabalho de Maneschy ao longo dos anos. Que também e inclusive, narra um pouco da história da arte paraense.
Parabéns aos dois!

Abaixo colamos (surrupiamos) a entrevista na íntegra, mas a postagem no endereço original pode ser visitada aqui: link.



Orlando Maneschy e uma Belém selvagem como caixa de Pandora.

Ricardo Macêdo entrevista Orlando Maneschy sobre a cena de arte de Belém

Orlando Maneschy é artista e curador e produtor independente. Nascido em Belém no ano de 1968, ele é Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC – São Paulo e responsável, juntamente com outros curadores, por articular, em torno de uma nova geração de artistas, exposições e projetos voltados para questões da arte contemporânea produzida atualmente em Belém e na Amazônia Nesta entrevista, conversamos sobre a produção artística visual da cidade de Belém e sobre um passado que atravessa o presente em uma relação de intercâmbio constante.
Ricardo Macêdo: Orlando, me fala um pouco sobre tua trajetória como artista. Como começastes e como anda tua produção?

1.Wild Natur, Instalação Performativa, 2009, Kunsthaus, Wiesbaden, Alemanha, 2009.(autoria junto com Ana Paula Lima)
Orlando Maneschy: Desde cedo eu gostava muito de ler, lia todas as que tinha em casa mas, em especial, uma enciclopédia que contava a história dos grandes artistas. Tinha uns oito anos de idade e já sabia de cor a vida deles. Com dez anos eu colecionava as matérias do Pietro Maria Bardi que eram publicadas em uma revista semanal. Lembro com muita clareza de uma matéria sobre a Claudia Andujar[1], sobre sua obra e seu envolvimento com a vida dos Yanomami, aquilo me marcou muito e me fez aguçar o gosto pela fotografia. Misturava em minha mente as imagens de Claudia Andujar com as referências locais, como as fotos de Reinaldo Silva Júnior[2] e as de Luiz Braga[3]. Lembro que – com uns oito ou dez anos – fui a uma exposição do Braga numa boate em Belém. Fui por acaso, porque minhas primas iam pra “matinê”, e eu não podia ficar sozinho na casa de meu avô, então fui junto. Me marcaram muito as fotos dele dessa exposição. Em 2010, eu trouxe a Claudia Andujar pra Belém, no Projeto Arte Pará. Já havia trabalhado com ela quando fiz a curadoria de Amazônia, a arte e, ao trazê-la ao Arte Pará, acabei por realizar sua primeira exposição na Amazônia, o que pra mim é algo importante, tanto no âmbito pessoal quanto para a cidade de Belém. Tê-la em uma exposição dentro do Museu Goeldi e ainda fazendo uma conferência foi algo extremamente significativo. Descobri, nesse período, que ela havia fotografado um trecho de uma rodovia em que meu pai tinha sido engenheiro, e, por coincidências do destino, em uma conversa entre os dois, descobriram que estávamos todos no mesmo lugar, lá, em minha infância, e que certamente teria sido Andujar a me fotografar com o ministro dos transportes da época. Eu acredito muito nisso, como as coisas, por vezes, vão se atravessando, se conectando…
A fotografia apareceu pra mim dentro de uma perspectiva de interagir com o mundo a minha volta. Comecei a me interessar desde cedo por imagem, de forma autodidata. Um dia, uma tia me deu uma câmera. Depois, ganhei uma câmera melhor de meu pai e assim eu fui me envolvendo com a fotografia. Depois desse interesse inicial, fui para a FotoAtivaprojeto de Miguel Chikaoka, que formou toda uma geração de artistas nos anos 1980 e 1990. A partir daí, comecei a participar de projetos locais, como o Caixa de Pandora, a FotoAtiva e depois de projetos fora, como o International Photo Meeting, dos Amigos da Fotografia de São Paulo etc.

2.Frame do video da Série Desaparições - Mata Lago Bolonha, 2012.
RM: Participastes, na década de 1990, de um grupo chamado Caixa de Pandora, que junto com outros fotógrafos, experimentavam a expansão das possibilidades da linguagem fotográfica. Conte-nos um pouco sobre esse grupo e as práticas dentro dele.
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3.detalhe primeira instalacao no Caixa de Pandora 1993

OM: Em 1983, ocorreu em Manaus um seminário chamado “As Artes Visuais na Amazônia”, um evento da FUNARTE que tinha o Paulo Herkenhoff à frente, no qual se discutiu as matrizes visuais da região. O seminário acabou incentivando muito artistas daqui, como o Osmar Pinheiro[4], o Emmanuel Nassar[5], o Luiz Braga a olharem pra essas matrizes. Isso foi determinante na produção artística local.
Quando eu comecei na FotoAtiva, em 1992/93, Claúdia Leão[6], Flavya Mutran[7] estavam por ali e o Mariano Klautau Filho[8], que era de uma geração um pouquinho anterior da FotoAtiva, sempre estava presente. E acabava rolando uma identificação, pois o que buscávamos era diferente dessa fotografia de uma matriz próxima à cultura popular, que havia sido alimentada pela FUNARTE. Já tínhamos algumas referências fortes, inclusive em uma fotografia urbana desenvolvida na metade dos anos 1980, pelo próprio Mariano e por Jorane Castro[9], hoje cineasta, que revelava uma cidade caótica, com uma arquitetura que procurava se encontrar. Com a oficina do Miguel Chikaoka[10], na FotoAtiva, questões eram deflagradas para que os participantes buscassem encontrar suas linguagens. Eu busquei fotografar o meu universo, situações com amigos. Por vezes, eu criava personagens. Eu, Cláudia, Flavya queríamos fazer uma coisa que fugisse dessa fotografia mais documental e, reunindo com um amigo nosso, o André Lima[11], que agora é estilista, pensamos em um projeto que discutisse o lugar da fotografia contemporânea. Debatemos várias ideias e chegamos ao mito de Pandora, pensando na própria fotografia e nas experiências que nós trouxemos das oficinas do Chikaoka, como abertura dessa caixa misteriosa da qual você não sabe o que irá emergir.
A partir disso, nós criamos o grupo Caixa de Pandora. Nossa primeira exposição foi em 1993 na Galeria Theodoro Braga (Belém) e, de certa forma, por meio da fotografia, estávamos fazendo arte contemporânea no momento em que em Belém a fotografia e as artes plásticas mantinham seus espaços bastante delimitados. Nós começamos a construir ambientes, instalações, que era algo que nem se falava cidade, até onde eu tenho conhecimento, a despeito de já termos algumas instalações de artistas paraenses, como a de Valdir Sarubbi[12] que esteve na Bienal. Mas não víamos artistas em Belém realizando projetos instalativos. E, a bem da verdade, não estávamos pensando na nomenclatura do que estávamos fazendo, mas preocupados com as questões que vínhamos constituindo com a imagem. E isso acabou mexendo muito com o público, que nunca tinha visto nada parecido com aquilo na cidade.
Fizemos várias edições do projeto e, a cada edição, colocávamos o desejo de ir mais além nas nossas pesquisas individuais, pensando na imagem como essa força deflagradora de intensidades. Éramos um grupo, com muita troca e debates, mas as pesquisas eram individuais. Mariano Klautau Filho, por exemplo, começou trabalhando com o vídeo e pensando o vídeo como elemento de decoupage das fotografias. Claúdia Leão mergulhou no laboratório e começou a se apropriar de filmes e personagens que eram caros a ela, e pensar em como essas imagens poderiam ativar relações de tempo diferentes, criando fotografias que fomentavam uma dissonância temporal. Flavya Mutran criava umas caixas em que os personagens que ela fotografava, pessoas mascaradas, animais revelavam-se. Eu fui para os meus amigos. Com isso, em minha primeira Pandora, personagens emergiam de sessões fotográficas com amigos, (Sinval Garcia, Márcia Mendes, André Lima etc) sempre em situações de construção junto com o outro, em momentos em que a confiança e a cumplicidade estavam presentes. Assim, materializei a primeira instalação, como se fosse uma sala de uma casa abandonada, repleta de fantasmas presos, borrados na fotografia. Na Pandora de 1995, comecei a trabalhar com vídeo: O Estranho foi o primeiro vídeo paraense a participar do Festival Mix Brasil, em 1996. Ele fez parte de uma instalação com objetos fotográficos, polaroids e velas. Eu falava de dor e perda, tinha sangue humano no trabalho. Em cada edição, nós íamos tentando alargar um pouco mais esse lugar. Nas pesquisas e projetos individuais, eu e a Cláudia [Leão] tínhamos uma tendência muito grande a ir para instalações, o Mariano [Klautau Filho] também fez isso, empregando quase sempre o vídeo e a Flavya [Mutran] também instalou objetos na edição de 1995. Creio que criamos um lugar de discussão. E não ficamos só nas exposições do grupo, fizemos um encontro de fotografia, o Vem-Quem-Quer – Encontro de Fotografia (PA), através do Caixa de Pandora – Núcleo de Imagens. Apoiamos também projetos de outros artistas e isso acabou fazendo com que a Pandora conquistasse uma certa visibilidade no cenário nacional, dentro do que vinha sendo chamado, na época, de “fotografia construída”.
RM: Quantas exposições correram?
OM: Começou em 1993, expusemos três vezes em Belém, e ainda em Ouro Preto (MG), Brasília (DF), Rio de Janeiro (RJ), Curitiba (PR), além de participações em diversas coletivas como “Retratos – Coletiva Brasileira anos 80/90” (SP, 1995), “Fotografia Contemporânea do Pará: Novas Visões” (RJ, 1998), dentre outros.  Em cada lugar era uma exposição diferente e, em algumas delas, outros artistas como Arthur Leandro, Sinval Garcia e Walda Marques participaram.
RM: Como ocorreu essa transição de artista/fotógrafo para curador independente?
OM: Bem, não acho que ocorreu bem uma transição, simplesmente passei a assumir papéis novos. Quando comecei o mestrado, em São Paulo, amigos começaram a me chamar pra projetos e, com essa convivência, nasceu o desejo de pensar exposições. Assim, a primeira foi dentro do Mês Internacional de Fotografia de São Paulo: “Perspectivas: Cinco olhares sob a Amazônia”, em 1999. Depois, participei de vários projetos como artista e propositor, mas a curadoria que considero como um momento em que as coisas começam a ficar claras na minha cabeça, foi no “Projeto Correspondência”, em 2002, quando convidei um grupo de artistas, de procedências distintas, para desenvolver obras a partir de um espaço intervalar, de uma potência de relação no espaço entre, entre uma pessoa e outra, entre um destino e outro. Pensar em um fluxo. Assim, foram produzidos um conjunto de múltiplos que em caixas de sedex. Foi um exercício de prática de liberdade, pois as obras deveriam coexistir com as demais nas caixas. Alguns artistas convidaram mais artistas pra trabalharem juntos e cada pessoa escolhia dois lugares, um no país e outro pelo mundo, pra receber essa caixa. Só não valia operar como divulgação institucional de seu trabalho, mas escolher a partir da potência de troca, compartilhamentos etc. Para mim, esse projeto foi deflagrador do que penso sobre projetos coletivos e possibilidades de trocas, diálogos, percursos. Cada um dos 50 conjuntos ganhou o mundo. Foram exibidos nas mais variadas situações, de espaços alternativos a casas de artistas, viraram presentes para alguns, foram encaminhados a acervos por outros, dispersaram-se e suscitaram respostas. Algumas foram enviadas a mim, outras diretamente aos artistas, mas o importante é que geraram um movimento, uma rede de afetos com arte. Depois de alguns anos, realizei uma exposição mostrando o processo, um conjunto de obras que foi enviado e aquilo que recebi como resposta. Este trabalho marcou um lugar de pensamento sobre arte para mim.

4.O Gabinte de Troféus do Idiotinha do Amor Instalação, 2011, Artista Convidado no 30º Arte Pará
RM: Qual a relação entre passado e presente nas produções atuais? Consegues reconhecer um trânsito entre as noções já balizadas como identificadores da produção local (precariedade, gambiarra, “primitivismo”) e a produção atual amazônica?
OM: Eu estive em um seminário, em 2011, sobre os salões de Curitiba e lá, no meio da conversa, o Paulo Herkenhoff falou uma coisa que me fez pensar que, a partir da minha entrada na curadoria do Salão Arte Pará, houve uma sutil recondução de paradigmas. Desde a década de 1980, existia uma forte atenção em relação a essa estética da gambiarra, de uma arte “povera” amazônica, dessas matrizes da cultura popular e, quando eu entro na curadoria, começam a surgir mais projetos experimentais, ações performativas, intervenções urbanas, instalações. Não é um mérito somente meu. É um mérito de quem estava comigo, dos júris que constituímos – porque o júri é algo muito importante para um salão – e também foi fruto dos artistas acreditarem que comigo na curadoria poderia existir uma abertura a projetos mais complexos. Também, por eu estar na houve um estímulo à participação de jovens artistas, que frequentavam a academia, e que não estavam preocupados apenas com a plasticidade das suas proposições.
Também acho que isso é fruto desses cursos novos, de um novo plano pedagógico na Universidade Federal do Pará e na Universidade da Amazônia no início dos anos 2000. Isso acabou fomentando o aparecimento de um novo tipo de artista na região, que não é mais um artista intuitivo, mas alguém que estuda, que pesquisa, que conhece História da Arte, que sabe de onde está falando. E eu acho que hoje o que nós percebemos na produção artística daqui é uma tradição forte da imagem, que vem sendo reiterada e fortalecida, mas que não vem mais diretamente da formação fotográfica calcada no estatuto da imagem, mas que tem uma forte relação com o tempo. Então, às vezes você tem uma fotografia em vídeo, ou seja, um vídeo de matriz fotográfica, como na produção do Alberto Bitar[13] e Dirceu Maués[14]. Em outros casos, a fotografia ou o vídeo vão ser o resultado de uma ação performática, como é visto no teu trabalho[15], como no do Victor de La Roque[16], da Luciana Magno[17], Bruno Cantuária[18], Maria Christina[19], Armando Queiroz[20], Berna Reale[21] etc. De certa forma, essa nossa “selvageria” está presente em ações vivas, que são fluxos e que a imagem é um resultado geral daquilo que continua no tempo, ou que o vídeo é o resultado de uma ação que detém uma força específica.
RM: Há alguns anos, conversando com o artista Sólon Ribeiro[22], ele me dizia que o fato de Belém estar afastada das referências mais diretas do eixo nos trazia uma certa vantagem, pois a produção aqui teria um leitmotiv diferenciado. Em que a distância pode nos ajudar, e em que ela nos prejudica?
OM: Há alguns dados que não podemos perder de vista. Primeiro, nós tivemos uma formação histórica muito forte desde a colonização. Tivemos vários momentos de modernidade desde quando viramos Império. Dentro disso, Belém é uma das grandes capitais modernas do país. Nós tivemos uma vida cultural e uma vida tecnológica fortíssima, isso foi nossa formação. A fotografia chega aqui quatro anos depois de ser posta em domínio público e isso vai afetar toda uma presença e uma história da imagem aqui.  É claro que, com a queda da borracha, vivemos, ao longo do século XX, uma diminuição da riqueza e sua concentração na mão de poucos, processo acentuado nesse século XXI. Vivemos geograficamente distantes do eixo tido como central da cultura no país mas, por outro lado, eu vejo que essa distância é positiva, no sentido de que a produção daqui não está sendo totalmente dirigida para ou pelo mercado. Isso faz diferença. Enquanto você vê, em determinados lugares, artistas jovens só se preocupando em serem absorvidos, aqui nós vemos as pessoas “enlouquecendo” e produzindo coisas pela necessidade de produzir arte. Claro que há necessidades como as dificuldades de sobrevivência. Mas elas fazem com que o artista tenha de se esforçar mais e criar outras estratégias. Então, penso nisso como algo positivo. Agora, depois de alguns projetos, o meio da arte está começando a fazer o que os curadores de fotografia já fazem há 20 anos: olhar para o Norte. O desafio é não sucumbir ao canto da sereia.
RM: Belém tem uma trajetória longa de experimentos com as imagens analógicas, a Associação FotoAtiva é um exemplo disso. Com a chegada das câmeras digitais, outros modos de reflexão foram surgindo, outros atores etc. Como vês esse diálogo entre aquela geração que trabalhava com um modelo de pensamento analógico em Belém e essas demandas e comportamentos que surgem dentro de uma cultura do digital?
OM: Olha, eu acho que tem os seus prós e contras. Hoje é muito fácil apertar um botão e ter uma foto “linda”, vai no automático e pronto, e não se pensa muito no que se está fazendo. Antes, você economizava o negativo, o filme era caro, você tinha de ter cuidado, pensar no que ia fazer, porque senão acabava os filmes e você poderia perder alguma imagem. Hoje você dispara 1500 fotografias. Penso que existem dois lados: se, por um lado, antes existia a necessidade de raciocínio e hoje em dia, as pessoas nem pensam no que estão fazendo, por outro lado, democratizou-se e ampliou-se a possibilidade da imagem. Ficou mais acessível e fácil para que os artistas pudessem trabalhar com imagem, pudessem materializar o que estavam desejando. Às vezes eu penso até em não chamar de fotografia, mas de digital shot, contudo, independentemente da nomenclatura, foi um passo positivo. Porque, é mais uma tecnologia a serviço da arte, precisamos usá-la com inteligência e talento, só isso.
RM: Gostaria que você falasse um pouco sobre a exposição Contra Pensamento Selvagem. Aparece nesse caso a figura do curador-artista, fale-me um pouco sobre esse tema.

5.Contra-Pensamento Selvagem, curada por Paulo Herkenhoff, Cayo Honorato, Clarissa Diniz e Orlando Maneschy


6.Vista parcial de Contra-Pensamento Selvagem, curada por Paulo Herkenhoff, Cayo Honorato, Clarissa Diniz e Orlando Maneschy
OM: Nem sei se é bem isso, no caso dessa mostra. Pra mim, não dá pra separar um momento em que sou isso, do outro em que sou aquilo. O que acontece é que, em alguns projetos, eu busco me colocar e me concentrar mais na curadoria, então, não participo como artista como, por exemplo, na exposição Contra-Pensamento Selvagem, (recorte dentro de Caos e Efeito, outubro de 2011, Itaú Cultural), onde não havia meu trabalho como artista, apesar de eu ter feito uma performance durante o ciclo de performance que realizamos, mas esta nem estava no programa, aconteceu. Ali, eu estava como co-curador, junto ao Paulo Herkenhoff, como Clarissa Diniz e Cayo Honorato. Esta mostra, para nós, teve uma importância muito grande, por termos buscado estabelecer um lugar de liberdade para os trabalhos. Paulo Herkenhoff é uma pessoa ímpar e que, com muita generosidade, chamou a mim (alguém do Norte), Clarissa (do Nordeste) e Cayo (do Centro-Oeste), para pensarmos que tipo de potência poderíamos colocar nessa exposição, já que era uma exposição que deflagraria, segundo o desejo da instituição, um pensamento, apontando um lugar para a Arte Brasileira. E aí nós partimos do Pensamento Selvagem do Lévi-Strauss, tentamos ir mais além, pensar o que ele não teve tempo de desenvolver, dentro das artes visuais, mas, também, como Foucault pra mim é muito caro, eu acabei misturando o “cuidar de si”, a ideia de uma estética da existência. Para mim, seria o que gostaria para o futuro: os artistas tomando seus lugares, ocupando, gerenciando, dialogando, colocando vida dentro da instituição!
Construímos juntos a curadoria, e pra mim era importante levar artistas que têm em seu exercício artístico uma força que, de certa forma, é dessa natureza “selvagem” no melhor dos sentidos! Foi também um exercício de construção coletiva e horizontal que nós tivemos com os artistas, chamamos eles pra pensar o espaço, tentamos alargar o espaço da instituição, constituir um lugar de liberdade na arte, sabendo que vivemos dentro de um sistema tão amarrado nas artes no Brasil, onde as imposições são muitas vezes ditadas pelo mercado, essa exposição pra mim foi um sopro de liberdade que ecoou lá do subsolo do Itaú Cultural. Encerramos o ciclo de performances de nossa curadoria na noite de domingo com Solange Tô Aberta! incendiando o público com suas performances no auditório do Itaú. Precisamos de vida na arte brasileira! Tentando te responder, não acho que fomos curadores-artistas, mas curadores sensíveis ao que era mais importante ali: o cuidado com o artista, com a arte. Favorecer a voz dos artistas.
Ricardo Macêdo é artista visual e mestrando do curso de Artes Visuais da UFMG.

[1] Fotógrafa nascida na Suíça em 1931 e que muda para o Brasil em 1957. Ver: http://www.galeriavermelho.com.br/pt/artista/49/claudia-andujar
[2] Fotógrafo de retratos de Belém, atuante na década de 1980. Ver: http://www.reinaldosilvajr.com.br/
[3] Fotógrafo nascido em Belém em 1956. Ver: http://www.luizbraga.fot.br/
Nos esclarece o pesquisador Mariano Klautau: “Em Belém entre os anos de 1982 à 1984, são realizadas as mostras coletivas FotoPará promovidas pelo Fotoficina, embrião da Associação Fotoativa” (KLAUTAU, 2012).  E dentro desses grupos e mostras é gestado a FotoAtiva. Sua data de criação é 1984, oficializada com o apoio da FUNARTE. Funcionava a principio, como um espaço de realização das oficinas e exposições de um grupo de fotógrafos: Miguel Chikaoka, Mariano Klautau Filho, Eduardo Kalif, Luiz Braga, Patrick Pardini, Pedro Jungman, Sonia Freitas, entre outros. Desde 1983, tais grupos impulsionaram uma postura ligada a reflexões teóricas sistemáticas e exercícios experimentais, valorizando uma fotografia de cunho autoral. Atualmente a Associação Fotoativa é responsável pela formação de uma boa parte dos fotógrafos atuantes no circuito artístico de Belém e vem ampliando suas ações em relação ao uso de novas mídias, na defesa do patrimônio histórico e difusão da reflexão sobre a fotografia no cenário contemporâneo nacional.
[4] Osmar Pinheiro, artista nascido em Belém em 1950. Ver: http://www.galeriavirgilio.com.br/artistas/opinheiro.html
[5] Emmanuel Nassar, nascido em Capanema (PA) em 1949. Ver: http://www.galeriamillan.com.br/