terça-feira, 27 de abril de 2010

TEXTO II

A CRÍTICA DA CRÍTICA – uma das possíveis respostas.

Recebemos um texto com uma crítica de arte direcionada ao trabalho “Espaços Autônomos” de autoria minha e de Bruno Cantuária. Uma bandeira pirata que está na exposição “INDICIAL”. E o texto é do polêmico amigo Dr. Luizan Pinheiro. Imaginei que esta deveria ser a melhor forma de responder a crítica, assim todos poderiam ter acesso aos textos e opinar também, para, quem sabe, fomentar mais olhares críticos. Se bem que, isso é sempre frustrante, pois quem pode opinar nunca opina e ficamos a esperar opiniões que nunca surgem. Não querendo mais esperar. Dentro de minhas possibilidades e limites teóricos, vou fazer minha parte.
Bom, sobre o trabalho. Ele não está atrelado ao Hakim Bey unicamente, o processo foi efetivado em grupo em maio/junho de 2008, oito pessoas participaram dele, foi um coletivo relâmpago e a idéia era pensar algumas situações da Cabanagem como zona autônoma, já que essa era a hipótese do projeto: a Cabanagem como uma inteligência coletiva. O que resultou em registros de ações que foram depois expostas em forma de documentos secundários no Laboratório das Onze Janelas. As bandeiras piratas foram espalhadas, intervenções, situações, etc. Em prédios públicos sem o aval dos mesmos.
Então, para com relação a potência do trabalho, se houve inicialmente potência ou não nesse sentido (do Bey), ela morreu lá no inicio, não pensamos em criogenia e não há ressentimento. A ação inicial resolveu muito bem as coisas naquele momento, o gozo ficou todo lá. Lembro de amarrarmos o secretário de defesa do Estado na época a um canhão no Forte do Presépio, havia um peso nessa imagem que passou batido para muitos fruidores. Tentamos remeter o ato ao Felipe Patroni amarrado ao canhão, enfim, foram quatro intervenções bem vivenciadas. Houve espaço para interação quase horizontal entre os participantes, opiniões, reuniões e conversas.
O que quero dizer é que uma obra que nasce a partir de situações construídas e ações perde naturalmente parte de sua potência ao ir para a imagem estática. A exposição em questão trata de imagem e fotografia no contemporâneo, acho que nosso trabalho acaba se encaixando mais no quesito imagem e a imagem que está lá no casarão não é a obra (essa é velha), aquilo lá é imagem casulo de algo que foi, acaba sendo um terceiro. Então necessário se faz, a meu ver, buscar outras relações presentes na estrutura da obra (daí o resgate da tradição da conversa), pensando não somente sua organização, suas relações com paredes e sei lá o que mais, mas, perceber outros meandros, se não subversivos, mas, teóricos, propositivos e não somente reativos. Em uma dimensão complexa ou sistêmica, colocando nesse nicho as pessoas que visitam o local, as intempéries, os olhares dos outros artistas, dos fotógrafos, em uma deriva de linhagens mais diversa, levando em conta que o Sr. Bey é apenas um peão e não o rei ou a rainha do tabuleiro.
Outra questão é se a não utilização da TAZ em sua pureza, explicita um declínio. Bom, então TAZ contraditoriamente está sendo entendida como metodologia e ela não é metodologia. A TAZ não é ferramenta, nem munição, nem máquina, termos bem mecanicistas. Não, ela foi reunião e encontro de pessoas que ocorreu antes da obra. Penso mais na diversão que isso me causa e no carnaval do que na questão mental e no propósito subversivo (ali no casarão). Se esse dado (da não utilização da TAZ) enfraqueceu o uso presente da imagem...sim, pode ser, mas, tal qual uma performance da Minerva Cuervas ou um registro de ação em um vídeo da Gillian Wearing, que sofrem constantes refazimentos pelo mundo, pergunto: tais obras declinam realmente em sua potência? Sob que ótica elas perdem potência? Se elas perdem por um viés não lhes sobra sempre outro?
Pensar a obra e suas relações com o entorno, fisicalidade do lugar e artevismo é um viés, mas, como complemento e para não cair no reducionismo, seria legal também pensar o histórico da coisa, sua ontogênese e sua rede de interações que amplia o entendimento e arremessa o trabalho para um outro campo, mesmo que pequeno, mesmo que em meio a simulações, mas, lícito de ser percebido e sentido.
No mais, agradecemos a crítica e esperamos que possam haver muitos outros “disparos para o contemporâneo!” voltados para outros artistas ou para este mesmo que vos fala.

Ricardo Macêdo.

2 comentários:

Anônimo disse...

Ricardo,
Não entendi a crítica do Luizan como uma crítica ao trabalho da dupla Ricardo/Bruno especificamente, mas como uma crítica mais ampla do processo do qual este fez parte em INDICIAL. E é muito interessante perceber que existe crítica. Desde a morte do La Rocque (O Cláudio)eu não percebia críticas circulando. E crítica em sociedades de muro baixo como Belém são um refresco benéfico contra a sede da mesmice da política cultural vigente.
Uma das últimas vezes que estive em Belém tive o prazer de visitar o espaço deste casarão do SESC antes da montagem de INDICIAL, a convite do Miguel Chikaoka. Um dos comentários que surgiu foi justamente sobre os riscos inerentes a forte personalidade daqueles escombros, que ao fim e ao cabo, o mais interessante dessa mostra seria perceber o diálogo resultante deste com as obras. Como qualquer diálogo, há a possibilidade de se avaliar entre os debatedores vencedores e vencidos ou um link para a continuidade do diálogo ad eternum. E a percepção disto (e de tudo) é, foi e será, universalmente do espectador. O Luizan apresentou a visão dele sobre o todo, você apresentou a réplica do que, entendeu, lhe concerne como autor/espectador na refêrência a sua autoria, e eu fico feliz de conseguir ser pelo menos um espectador virtual, miseravelmente tolhido geograficamente de poder observar a mostra apresentada no casarão. Luizan, o INDICIAL é efetivamente o Casarão TAMBÉM, por que não?
Assim como ser é perceber, esse est percipi (Berkeley), como o Franz Cecim não cansa de re-lembrar em suas obras.
Parabéns ao movimento Belém que não para apesar dos (des) governos.

Abs,

Paulo Almeida

Novas Medias!? disse...

Revendo as postagens no blog, me deparei com esse belo comentário do Paulo Almeida, e me penalizo por não ter visto antes.
Percebo a importância real de tentarmos fazer re-surgir a crítica e de colocarmos na baila a questão do casarão como um corpo.
Reitero isso quando propus no texto pensar a obra mais seu entorno subjetivo, matérico, enfim.
O que me chama atenção e o trabalho foi um trampolim para oportunizar isso, é o fato de poder discutir abertamente com alguém que sei, não ter muitos problemas em lidar com esses embates, Luizan é alguém com quem discuto, sem medo de represália lá na frente. A questão não é admitir ou não a crítica, ter ela ou não como crítica, louvar ou não a crítica, pensar ou não se o casarão estava na baila, se ele precisa ser olhado, sei que precisamos disso tudo, mas, algo central e que permeia todos esses pontos e que sem ele as coisas não fluem em nenhuma direção é a relação entre pessoas, a vivência.
E o que pouco se discute em Belém, por conta dessa falta de relação mais aberta, é de que forma muitos que pensam e escrevem de maneira crítica, podem deixar - sem receio - suas palavras ecoarem da mesa do bar para serem postadas, publicadas e ouvidas em palestras e comunicações.
A questão é contribuir com o que se pensa, sobre os eventos em Belém, só isso, o casarão e a obra, depois o texto Luizânico foram pretextos para ter o que pouco temos: diálogo e provocação dele. Fruições, opiniões, claro... elas serão sempre muitas, mas, quem as fale, veja só, 3 pessoas aqui, td bem que, um bloguinho desse, nem tantos são os visitantes, nunca contei o marcador, mas, há coisas pulsando aqui. Ter pra si um discurso, mas, soboreá-lo e discuti-lo com Outros eis a questão.
Obrigado pelas palavras, visite sempre nosso blog. Abrçs
Ricardo Macêdo