sábado, 18 de setembro de 2010

A Feira do Livro não merece uma foto.


Esse texto não merece uma foto. Nenhuma imagem. Aqui em Belém a XIV Feira Pan-Amazônica do Livro foi do barulho. Público recorde, muita gente visitando, milhares de fotos entre amigos, familiares, namorados, turmas de colégios, todo mundo registrando que foi na feira do livro. Três situações foram escolhidas para ilustrar o desanimo de muita gente sobre a bendita feira.


Situação 1: Hilário foi ver uma moça batendo foto com um exemplar do livro “Os Deputados Brasileiros nas Cortes Gerais de 1821” de M.E. Gomes de Carvalho na livraria do Senado Federal (fiz questão de ver depois qual foi o livro que ela tomou em seu colo para a foto de “eu fui na Feira do Livro”). Pelo perfil da jovem que aparentava ter 16 ou 17 anos, pelos pobres diálogos de uma adolescente de classe média, não é difícil deduzir que aquele exemplar só entrou na vida dessa estudante para a pose na fotografia (pela idade deve-se supor que estude). Nada mais do que uma foto, o livro voltou para a prateleira.

Situação 2: No dia do show do Lenine, na programação dizendo que o artista iria tocar às dez horas, porém até a meia noite nada do astro principal chegar, e gente além do demais, e pivetes batendo até os joelhos. Como disse um conhecido que encontrei por lá: – “égua, tá fazendo lama até a canela de tanto pivete". Mas é claro, uma feira do livro tem essas coisas, é comum o número de meliantes que estavam prestigiando suas aquisições no meio da multidão. Uma feira do livro do barulho.

Situação 3: Quem subia as escadas para ir ao segundo andar do Hangar, tinha uma visão aérea privilegiada: cardumes, manadas, levas, esquadrilhas, quadrilhas, gente que não acabava mais no meio dos corredores, mas dentro das estandes... Era triste de se ver. O apelo popular que muitos defendem com os “recordes de público”, mostrando em números que milhares de pessoas vão à feira do livro, como se isso justificasse que a “galerarona” que estava lá começou a ler de um dia para o outro.

Situação 4: Ao lado do espaço da livraria da Visão, havia um pedaço destinado para os grupos de dança, ou seja, barulho e mais um corredor fechado. Novamente, “faz parte do incentivo à leitura”, assim como as músicas altas nos aparelhos celulares, mp3, mp4, mp289030... que impulsionavam as carreatas de pessoas (não somente os jovens) que perambulavam pelos corredores. Talvez estivessem atrás do livro “como não ser mal educado em público”.

Na Feira do Barulho, o público interessado nos livros só se aborreceu, se estressou, foi roubado pela pivetada com livre acesso à feira, não podia andar direito pelos corredores abarrotados de jovens e pessoas desocupadas que não tinham o que fazer e foram fazer da feira do livro um Ver-o-peso-trash-punk-hard-hot, até porque o próprio mercado do Ver-o-peso é mais organizado e por incrível que pareça para uns, tem menos meliantes. Quem diria!

Tudo bem que você vá com sua família fazer um passeio diferente, porém, transformar um evento e espaço cultural numa zona (até pior que a zona, porque o barulho e a quantidade de furtos não era brincadeira!). Claro que os números não vão mostrar isso jamais, mas era só parar num dos estandes para conversar e num momento era descoberto que ali alguns livros já tinham sido surrupiados, alguns transeuntes molestados e ficaram no prejuízo. Os próprios donos e trabalhadores da feira pedem há algum tempo que sejam tomadas medidas sérias para conter o abuso que todos os interessados no evento vem sofrendo (o pessoal da Unesp e da UFMG deixavam isso bem claro em alto e bom som numa conversa). Talvez uma das medidas que poderiam ser uma solução e selecionar o público, não excluir, seria a bendita venda de ingressos, estes que até poderiam ser convertidos num desconto em compras. Outras feiras cobram ingressos, porque não a feira do livro em Belém? A Bienal do livro em São Paulo cobra R$10,00 por cabeça e os “números” mostram que quem gosta de ler, compra livro, gosta do cheiro das páginas, do volume de páginas nas mãos, não deixa de ir lá. O ingresso poderia ser convertido em desconto ou consumação, assim, o “gasto da entrada” já seria uma aquisição. Afinal, o recorde deveria ser de vendas e leitura, não de aborrecimento.

Poderiam também desvincular os shows do “povão” também, já que a feira do livro é de característica intelectual e os públicos e freqüentadores de cada tipo de evento são mais que distintos (generalizando mesmo, ok!). Lembremos do dia do show do Lenine, recorde de “públicos”: o da feira, o do show e os que roubam (a natureza do roubo ou furto aqui não interessa). No show a quantidade de pivetes era absurda. Os taxistas se deram bem nessa noite levando as pessoas para suas casas, pois estas assim como eu, com medo de ir para as paradas de ônibus ou ir a pé e encontrar “o dono do celular, da câmera, do relógio”, menos dos livros, fizeram a festa dos taxistas. Nem é preciso comentar do dia do Calypso. Público aos milhares. Os livros continuavam nas prateleiras.

Talvez EU deixe de ir ano que vem ou nos próximos, afinal não dependo da feira para ter o prazer de folhear e adquirir minhas leituras. Como muitos dos freqüentadores da feira do livro, tenho gosto de ir às poucas livrarias da nossa cidade. Porém, se continuar do jeito que está, vou só quando inventarem o teletransporte e ele nos deixar dentro dos estandes, porque os corredores vãos ser o “Muro de Berliém”, intransponíveis, quem quiser cruzá-los atrás dos livros e de cultura, vai ser sugado, emparedado, pisoteado, levado pelo mar da ignorância, dos cotovelos, dos meninos prestidigitadores de bolsas e carteiras. Que visão! Deviam até mudar o nome para Feirão Pisão-amazônico do livro, tamanha a confusão e multidão desinteressada nos maços de papel com letrinhas.

Para finalizar, gostaria de comentar sobre uma nota nacional que o ilustre Luis Fernando Veríssimo proferiu sobre o evento[1], maravilhado com as pessoas, o grande público, os cheiros do Ver-o-peso, que foi “Claro que só uma pequena parte daquela multidão estava lá para comprar livros, mas o livro e seus entornos eram a principal atração do evento e a maior parte da multidão era de jovens leitores em potencial”; e também, porém entrando em contradição: "aposto que nenhum líquido engarrafado entusiasmaria mais do que a visão da garotada enchendo todos os espaços da enorme feira, levada pelo livro." Parece que nosso querido escritor ficou numa redoma ou área VIP, observando a multidão e maravilhado com a bagunça, ou anda com uma visão muita romântica sobre os inúmeros “jovens leitores em potencial.” Apesar dos números orgulhosos e dignificantes que os Governos apresentam sobre a educação no Brasil (nem fale de educação no Pará que rima com “chorá”), há maior formação de analfabetos funcionais do que leitores.

Veríssimo foi lá pelos livros, eu também, assim como amigos, conhecidos, familiares. A maioria foi pra festa, pra bagunça. Livros? Estavam tão bonitos nas prateleiras que o recorde de público preferiu deixá-los quietinhos e ir ver a Joelma e o Lenine. Como disse no início desse texto, ele não merece uma foto. Fotos são para nos lembrarmos, não esquecermos algo. A feira do barulho merece ser esquecida.


Bruno Cantuária, 2010.

A imagem acima foi retirada do filme "Fahrenheit 451" (1966) de François Truffaut. Baseado numa obra de Ray Bradbury, este filme é sobre um sinistro comando de bombeiros que, numa futura sociedade totalitária, se dedica apenas a destruir (pelo fogo, pois claro) todos os livros existentes no mundo.

30 comentários:

Coisa-negócio disse...

Post completamente equivocado...que "julga um livro pela capa" ...que não entende a união das artes em um evento como este e por ultimo, que não sabe o quanto as pessoas compraram, ou seja, são leitores sim!
Má educação há em todo lugar, atraso em evento desse porte é "praxe", violência em multidão...prefiro nem comentar. Por tanto, seu post é...Desnecessário.

Anônimo disse...

Minha mãe foi lá no sábado a tarde querendo curtir os livros, garimpar livros bons e baratos e segundo ela "se não estivesse com muita vontade de comprar uns livros não teria suportado ficar lá dentro por um hora e meia" tamanho era o calor, a bagunça, a multidão e na hora ela não entendeu porque tinha tanta polícia lá... coitada, ela não prestou atenção que estava cercada de pivetes. O que era pra ser um passeio agradável se transformou num momento de aborrecimento.

Juliana P.D.N.

Anônimo disse...

Concordo com o Bruno e somo mais 2 detalhes:
1)Não havia este ano nenhuma boa novidade literária na feira do Livro, pois boa parte dos estandes que visitei estavam vendendo revistinhas tipo Ti-ti-ti e palavras cruzadas.

2) Os preços dos livros estavam caros. Livros que, na mesma semana, comprei pela internet estavam quase 100% mais caros na feira.

o que se viu foi uma tentativa de transformar o espaço cultural em espaço populesco com apelos grosseiros às sensibilidades das pessoas. Lamento que um governo que se diz popular faça este desserviço com seu povo.

Petrus Alcantara Jr. - professor

Anônimo disse...

Olha Bruno, com todo o respeito, mas, acho que como professor que és...realmente, o post foi de um preconceito meio velado. A insegurança, o medo, também está em nós. Não sei até onde o rancor pode ajudar.

Ricardo Macêdo

Anônimo disse...

HHuuumm, tô desconfiando que isso vai virar algo como: vou chamar meus amigos pra comer um peixe. ahhahaha

Ricardo

Bruno Cantuária disse...

Esse Tamatá vai deixar todo mundo com pitiú. Chamar o post de desnecessário... desconsiderando os problemas vistos não somente por mim, afinal, falei das minhas dores sobre a avacalhação que ficou a Feira e também tomei a dor dos outros (que não são poucos). Caro André, se a bagunça crescendo e deixando ela tomar conta é "de praxe", realmente é melhor deixar de ir na feira do livro e continuar indo assiduamente somente às livrarias. Uma pena para aqueles que tentam aproveitar para caçar descontos e ofertas e acabam encontrando com os "leitores" de quem falas ou com os preços abusivos, celulares que mais parecem caixas de som tocando qualquer música (o que já é tamanho desrespeito com as pessoas ao redor, mostrando que esses "leitores" não sabem como agir em espaços públicos).

Bruno Cantuária disse...

Ricardo, sei que em alguns pontos fui preconceituoso, porém, as situações citadas no post, algumas apenas, são um reflexo de desorganização descarada. Muitos furtos, misturar públicos distintos de forma desorganizada e livre-acesso a pivetes não é uma coisa que deve ser deixada de lado como normal. Como disse, quem vai a Feira do livro, vai pelo passeio e pelos livros, não vai atrás de bagunça, mas foi isso que essa feira se tornou.

Coisa-negócio disse...

Bruno,
Preste atenção como se chama o evento: "Feira do Livro"...e como é uma "Feira"?... já viu alguma feira extremamente organizada?... lógico que o sucesso desta feira tomou proporções não previstas e como eu disse no meu comentário anterior, má educação existe em todo lugar (me refiro aos celulares-caixa-de-som). Deveríamos ficar felizes com o sucesso da feira, e o seu preconceito assumido em seu comentário-resposta, continua a afirmar que seu post foi desnecessário sim. Aliás suas aspas continuam preconceituosas, não fica bem para um mestre.

Anônimo disse...

Como já diria Raul seixas: "Eu também vou reclamar".
Acho que hoje em dia com o intuito de não parecer preconceituoso as pessoas andam promovendo uma permissividade extremamente negativa.
O fato de as pessoas terem direitos não quer dizer que elas podem fazer o q querem e o que bem entendem. Um "preconceito" que aprendi muito cedo na escola e em minha família é que "meu direito termina, quando começa o do outro". Não acho que as pessoas devem ser proíbidas de ir à feira do livro ou a qualquer lugar, mas penso que toda situação requer um tipo de comportamento adequado.
Tenho certeza que ninguém vai de biquíni ou de micro-shorts e micro-blusas a uma missa e fica ouvindo música altíssima, chamando palavrão e se agarrando pelos corredores, gritando, tirando 20 fotos a cada 5 metros bloqueando a passagem dos transeuntes , porque não é o tipo de comportamento esperado em uma missa. Também não é o tipo de comportamento esperado em um evento como a feira do livro.
Creio que o que se espera das pessoas em um evento como a feira do livro é que visitem os stands, conversem com os amigos, comprem livros, tudo com educação, respeito e tranqüilidade.
Não sei se é preconceito pedir educação e comportamentos adequados as pessoas. Sei que sendo preconceito ou não, a vida em sociedade vai se tornar impossível se permitir que todos ajam como querem. E se eu quisesse andar nua, ir trabalhar nua, matar pessoas q não gosto, bater em quem julgo que me incomoda???. Será mesmo que me permitiriam fazer tudo o que quero??? Tenho certeza que me impediriam.
Não se pode ficar calado e permitir que os direitos das pessoas que cumprem seus deveres sejam desrespeitados por aqueles que NÃO cumprem seu dever de respeitar o próximo. Penso que a feira do livro deste ano foi um espetáculo de desrespeitos às pessoas ordeiras e de bem, mas um show de reforço para o comportamento (ou falta de comportamento) dos que não respeitam ninguém... Aliás, penso que o comportamento da maioria dos que inflaram as estatísticas de recorde de público da feira do livro, não é um comportamento digno nem se quer de freqüentadores da feira do Ver-o-peso.
Pedir educação das pessoas não é preconceito. Preconceito é achar que liberdade é poder fazer tudo que se quer. Isso não é liberdade é permissividade! Não há liberdade quando eu, a fim de fazer o que quero, tiro a liberdade do outro. Liberdade é um direito e um dever de todos. E só há liberdade quando todos são respeitados. Infelizmente os cumpridores da lei não foram respeitados nesta feira do livro, pois tivemos nossa liberdade cerceada pelos que confundem liberdade com permissividade.

CYNTHIA

Anônimo disse...

Falou a classe media esclarecida. Vai la classe media: Esclarece.(desculpe, estou sem teclas de acento.)
ricardo macedo.

Anônimo disse...

Decepcionante saber que numa Capital como essa, que se diz "tão cultural", pessoas ainda concordem com uma feira do Livro virar uma zona. Feira é organizado sim. Existem, inclusive, fiscais. O problema maior do nosso país ainda é educação. Estamos na descendente da educação. Se um dia fomos muito educados, hoje, nessa descendente, voltaremos a ser os antigos ignorantes das cavernas. Não respeitando o espaço alheio por achar que o mundo lhe pertence, não respeitar os mais velhos porque eles não sabem de nada, não ser responsável pelos seus atos porque são pequenos infratores ( roubam, sequestram, torturam e até matam) e não gostam de escola porqe lá se ensinam coisas desagradaveis como a matemática, o português, as ciências em geral. Assim, como podem ver, estamos regredindo. Nessa batida, em breve voltaremos a grunir e tentar morder os nossos semelhantes dentre outras coisas.
Ao amigo que iniciou o post, que considero não equivocado, junto aqui o meu lamento de que um dia esperei coisa melhor para os nossos jovens que estão se destruindo mais a cada dia que passa.

Anônimo disse...

Infelizmente há muitos membros da "classe média esclarecida" que não são educados, nem tem boas maneiras, nem sabem respeitar o outro, muito pelo contrário, são o oposto de tudo isso. Não acho que Educação e respeito ao próximo está relacionado diretamente a situação financeira. Tenho a felicidade de conhecer pessoas de situação financeira muito ruim, porém primorosas no que tange a educação, as boas maneiras e em respeito ao próximo. Acho que relacionar esses valores com a condição financeira das pessoas é um preconceito muito grave...

PS: Por favor, não confundam bons modos com "etiqueta barata" do tipo: saber usar 10 tipos de talheres diferentes na hora do jantar, saber escolher vinhos e futilidades do gênero. Os bons modos de que falo tem a ver com gentileza e tratar bem mesmo quem não conhecemos ou quem não gostamos... Ser gentil e com que se gosta é fácil, mas com que não se gosta é uma virtude (no sentido aristotélico)... Claro que se não trata de hipocrisia, ou de fingir intimidade com quem não temos, mas de educação.

CNA

Anônimo disse...

Ahahhaha, putz...É isso aí: esclareça-nos!!

Ricardo Macêdo

Anônimo disse...

Como sei que muitos devem estar acompanhando a discussão, aproveito o espaço para divulgar uma ação que ocorrerá dia 26 (domingo) 10h:00 da manhã em frente ao Museu Histórico de Arte do Estado. O trabalho Bla Bla Bla é uma fina e bem humorada crítica aos discursos competentes dos políticos de nossa cidade. Apareçam!! O trampo é da Lu Magno.
Ricardo Macêdo

Bruno Cantuária disse...

"Esclareça-nos"... acho que a zombaria não vai ajudar a esclarecer nada. E olha que eu tenho um senso de humor de rir em velório.

Anônimo disse...

Ok.

Ricardo.

Anônimo disse...

Este ano decidi não ir à Feira, primeiro porque não tinha dinheiro para comprar o que queria, e segundo porque as últimas visitas ao espaço não foram nada risíveis.
Olha, não vou dizer que fulano está certo e o outro errado. Cada um tem um ponto de vista, a verdade pode estar entre os dois, não em um ponto, senão vira totalitarismo ideológico.
Concordo e discordo em alguns pontos com Bruno: há muitos anos, desde que a Feira foi realizada nos galpões da CDP e, depois, na Hangar em reformas (com entrada pela Almirante Barroso) é que acho que deveria ser cobrado ingresso (apesar de que para o bandido isso não é impedimento: ele rouba pra pagar ingresso e ir roubar dentro da feira).
Qual os princípios de se criar um Feira do livro? Acho que principalmente é culturar as pessoas; aumentar a venda de livros e, consequentemente o lucro de editoras; promover empregos (temporários ou não), estimular à leitura à quem tem pouco acesso ou não tem o hábito de ler por "não gostar de ler" (acham enfadonho, perca de tempo). Tudo essas ações focam na educação. Sem educação, um povo vive adormecido.
A maneira como foi concebida a feira é que talvez contenha falhas. Digo e repito, ingressos deveriam ser cobrados. Não devemos negar o acesso à leitura as pessoas, mas também não se pode transformar em balburdia algo que deveria ser uma confraternização cultural.
Não adianta parecer um radical socialista afirmando "evento para todos!", "abaixo a burguesia!", "vamos ocupar a Feira do livro porque ela é um evento do povo!". Os considerados "mal-educados" precisam ser educados, e digo não só educação dos livros, mas a educação que vem de casa. Posso muito bem ter ótimas condições de vida e achar que isto é uma permissão para agir como queira,ou então achar que sou um pobre coitado oprimido e esquecido pelo poder público e achar que tenho o direito de também fazer o que quiser. Isto está parecendo luta de classes.
Também presenciei coisas ridículas em outros anos: durante um bate-papo com Serginho Groisman, um cidadão perguntou se ele era gay e era casado. Senti vergonha alheia.

Fabíola Corrêa

(continua abaixo)

Anônimo disse...

(continuando)

A solução não é simplesmente virar as costas e esnobar aqueles que não entendem o real intuito de existir uma Feira em Belém. A feira poderia manter a programação cultural não com grandes shows, mas coisas mais simplórias, como saraus e peças de teatro. "Vender" a feira como um evento pluricultural, onde há shows de Calypso e Lenine, é um erro (erro não só pela escolha do Calypso, mas dos grandes shows de maneira geral). Feira do livro é para estimular leitura, quem vai para um show de graça, não tá nem aí se aquilo é uma feira do livro (salvo excessões).
Muitos dos que vão lá só têm dinheiro do ônibus, quem dirá do lanche. Como o paraense adora uma muvuca e uma festa, e quando os eventos são de graça sempre lotam, acho que algumas soluções poderiam ser tomadas: primeiro a cobrança de ingressos com desconto em compras, pois isso reduziria esse mundaréu de gente; segundo é "vender" a feira como um evento voltado à leitura, e não aos shows musicais; terceiro seria aumentar o número de pequenas apresentações ou bates-papo, nada muito megalomaníaco; quarto seria aumentar a fiscalização dentro do espaço; melhorar o ar-cndicionado; quinto, para os estudantes de escolas públicas, o governo deveria recrutá-los como voluntários da feira, promover ainda mais grupos de visitação. Para estudantes de baixa renda com comprovação escolar, deveriam ter descontos especiais em alguns tipos de publicação. A feira também deveria acontecer não só durante uma semana, mas o ano todo: agentes de leitura recrutados entre os alunos mais aplicados da rede pública poderiam ser agentes de leitura nas escolas pública, tendo semanalmente encontros literários, grupos de leitura, etc. Esses alunos poderiam ser premiados com livros e até cursos de capacitação. A escola deveria ter um dia por semana (sábado?) de encontro literário com os pais e familiares para que estes também tivessem acesso à leitura.
Não adianta ficar esperneando que o governo esqueceu deles, que quem compra livros é rico. A educação deve ser feita sempre, por isso não para esperar que pessoas "sem educação" ajam como lordes durante a Feira. Mais educação, menos ladrão. A ladroagem também deve ser punida com seus atos: para os delitos cometidos dentro do evento, penas de ações comunitárias, como por exemplo, ler livros para crianças de escola pública ou limpar a rua (que afinal é outro problema, mas não vou entrar nesta discussão).
É claro que ver novos livros, folhear, não é igual a escolher livros pela net, mas como eu já havia falado para o Ricardo há algum tempo, tenho preferido comprar livros pela net (a não ser a Livraria Francesa que sempre vai à Feira e têm ótimas opções). Pela internet têm promoções e preços mais acessíveis, posso comprar um grande número e o frete sai de graça, além de certas publicações eu só achar em lojas virtuais. A maioria dos stands da Feira só vende livros de auto-ajuda, best-sellers do tipo "Crespúsculo". Fora que realmente às vezes é um sufoco achar alguma coisa. Por isso não fui à Feira este ano.
Se mudanças ocorrerem, quem sabe próximo ano estarei lá, até porque também não vou ao evento somente para comprar, mas também para os bate-papos, exibições de vídeos, etc. Senão continuo no meu quarto, comprando livros pela internet.

Fabíola Corrêa

Bruno Cantuária disse...

Gostei das palavras Fabíola, e é claro, não sou senhor da razão, apenas alguém muito indignado com a bagunça que vivenciei e com o que escutei de deixar o ouvido calejado. Cobrança de ingressos, ingressos convertidos para descontos ou para consumação já seriam uma melhora de proporções gigantescas. A segurança, as ofertas, a demanda de livros, muito ficou a desejar. Quando vejo alguém lendo os "Crepúsculos e os Ladrões de raios e queijos da literatura" por aí, mesmo não gostando desse tipo de leitura, faço a minha parte em incentivar, dizer o "puxa, que bacana", pois esse aí sim é um leitor em potencial, não o caramada que vai escutar seu celular mp3 em níveis assombrosos ou aquele que vai na feira só pra bater foto e fazer bagunça. Agora, essa pergunta pro Serginho Groisman... faz parte do recorde de público.

Coisa-negócio disse...

Pessoas,
Acho que tudo tende a melhorar, tb não gosto da falta de educação e muito menos dos "celulares-caixas-de-som"...mas, a Feira do Livro é uma ação de Estado com a intenção de Cultura para todos! para todos...os educados e o mal educados...Se fosse cobrado ingresso, já viriam a críticas: "olha só, essa feira é pras elites!". Agora, faço como uma personagem do Terça Insana: "Vai matar? Não! Vai instruir, vai inducar!"...e é essa a tentativa! -Tentativa que acho válida. Da Organização europeia estamos longe, infelizmente, mas, não dá pra criticar tão unilateralmente um evento que quer estimular a leitura, minha gente, a cultura!
-Sim, eu tb tenho minhas críticas quanto a feira; sim, eu tb não levaria o Calypso; sim, não gosto de pessoas sem educação! Mas, se estivéssemos cercados por pessoas perfeitas, não estaríamos aqui, estaríamos no paraíso. Invés de criticar, ajude, ensine, eduque! Eu faço minha parte, e vcs? pessoas tão educadas e esclarecidas, fazem? ou apenas coberem-se com seus mantos de fineza e preconceito e criticam?! Assim, é fácil!

Bruno Cantuária disse...

Bom, uma coisa todos queremos: que a cultura seja difundida, que todos tenham acesso a ela. André, sou professor e luto como você para cativar bons valores na cabeça dessa molecada, seja nos gestos, nas palavras, nas ações, o que interessa é que todos cresçam e sejam educados. Como a Feira, que é o xis da questão aqui, ser um evento que atrai uma imensa leva de pessoas, lembrando que a curiosidade é uma forte aliada para a iniciação da leitura, também pensei que as medidas propostas por mim e por terceiros parecer extrema sob o ponto de vista de uns, talvez fossem soluções ou alternativas mais enérgicas para ver se o evento que julgamos importante para todos não se perca nas mãos e ações de baderneiros e pessoas de má índole. Até lembrei hoje de uma dessas frases feitas que diz "gentileza gera gentileza", que é o otimismo que devemos propagar, não passar a mão sobre aqueles que transformam coisas boas em lixo. Antes da cobrança de ingressos ou cobranças gerais, podemos nos cobrar em usar um pouco mais da nossa força para educar e transformar nossa discussão e nosso objetivo em realidade num futuro próximo, que é uma melhoria não somente para a feira do livro, mas para (continua...)

Bruno Cantuária disse...

... o crescimento e amadurecimento das pessoas da nossa cidade. Vai que essa cobrança por um pouco mais de educação já seja uma grande mudança. Já imaginei as correntes educativas na internet: "como se comportar na feira do livro", "não jogue o coco pela janela do ônibus", "use fone de ouvido e fale baixo, pois meu ouvido não é pinico", "jogue lixo no chão e ajude a alagar a sua cidade" etc. rsrs

Coisa-negócio disse...

É desse tipo de discurso que proponho Bruno. Agora começamos a nos entender...só não concordo com a exclusão...mesmo dos "baderneiros" e "pessoas de má índole"...acho que todos temos que ter e dar chance a evolução do ser humano para melhor. Tem que educar, tem que instruir, com gentileza. Nós, em algum momento da vida, tivemos alguém gentil pra nos ensinar que jogar lixo na rua é errado, que ouvir música alta em lugar público tb, que um bom livro na maioria das vezes é melhor que televisão, etc. Somente julgar e condenar ao limbo essas pessoas não dá, até por que mais cedo ou mais tarde, vc esbarra com elas novamente.
Take care.

Anônimo disse...

Num primeiro momento, excluir esse povão seria uma forma de melhorar as coisas, tipo: só entra quem for interessado meeesmo, quem estiver afim de verdade e não de ir lá e sacanear com níveis baixos de educação. Assim, acho que o "merecimento" será o cerne da qeustão: entra quem se portar de acordo com o evento, os educados, aqueles que sabem conviver harmoniosamente em sociedade sem desrespeitar o próximo. Muita sacanagem o que eu vi nessa Feira do livro, só gente mal educada e se portando como bichos. Nas outras feiras e eventos do hangar todo mundo paga e não faz algazarra. Nao era assim antes não. Outra coisa, acho que a postagem do camarada Bruno só reforçou muita coisa que já tinha sido pensada e não é botada em prática.

Suellen Nascimento.

Anônimo disse...

Legal, mas falta entender agora porque algumas pessoas andam se tornando permissivas. Seria por uma causa imaterial, uma inspiração transcendental ou algo parecido? Ou seria por falta de ações civilizatórias da parte da própria sociedade em que elas estão inseridas?
Será que se houver exemplos de respeito, dignidade e honestidade por parte daquela outra parte da sociedade que se projeta nos espaços de mídia, não haveria que se esperar um outro comportamento por parte da galera? O que se pode esperar de uma pessoa que tem como maior perspectiva de vida ser um Bruno do Flamengo, ou um Ronaldinho... ou ainda uma Mulher Melancia, não em suas qualidades essenciais como pessoas, mas suas formas públicas de celebridades em declínio,em exposição de suas piores facetas?
Quando crescemos aprendendo a respeitar os outros, a ganhar a vida com dignidade e honestidade, delimitados por valores éticos... a isto eu chamo de EDUCAÇÃO, que se aprende essencialmente em casa, ou com diálogo ou por exemplos... A escolaridade é outra coisa... Talvez não precisassemos de órgãos públicos de educação, mas sim de secretarias ou ministérios de instrução pública, de escolarização.
A feira do livro 2010 aconteceu no momento da campanha eleitoral aonde os postulantes à continuidade em mandato não têm expressão política e administrativa no Estado... só lhes restou apelar para as girândolas e holofotes que tanto acalentam os sonhos de boa parte de nossa população carente de expectativas, uma população sem auto-estima.

Kisses e vão em frente

Petrus

Anônimo disse...

Gente! Estou adorando acompanhar este debate! Todos os dias tenho vindo ver se há novas colocações! Estou gostando de tudo o que estou lendo. É sempre bom saber outras idéias e perspectivas, nos ajuda a refletir a nossa própria.
O Blog está de parabéns por promover este espaço genuinamente democrático que agrega pontos de vista diversos e divergentes, mas possibilitando uma discussão salutar!Parabéns!

CNA

Anônimo disse...

A questão não é dizer que "eu" ajudo e fulado não... ficar medindo forças pra dizer que está fazendo sua parte e, por isso, poderia ser considerado uma "pessoa melhor". Apontar o dedo para os outros e chamar de "racista", "burguês", "preconceituoso", também pode ser enquadrado como preconceito (nosso código civil é dúbio). Esse negócio de luta de classes parou no século XVII! Não é assim que uma sociedade cresce e evolui.
Acho que quem quer aprender, conhecer, vai atrás. Os "pobres coitados" que vão para a feira do livro poderiam e deveriam ver livros, conhecê-los, e não roubá-los para sei-lá-o-que e ficar ouvindo música em celulares como se fossem aparelhagens.
Mesmo os "burgueses", como definem algumas pessoas, precisam se esforçar para serem alguém na vida, a não ser que tenham nascido em berço esplêndido ou saibam como administrar a fortuna herdada em família. Até grandes herdeiros precisam estudar para saber como cuidar de seu dinheiro.
Lógico que TODOS, eu disse, TODOS os cidadão de boa índole e sérias desejam que seu país seja educado, que a educação seja prioridade governamental. Imaginem se o Brasil tivesse os índices e qualidade de educação de um país escandinavo?! Estaríamos anos-luz de evolução do que estamos hoje. E feira- do - livro serve para isso: instruir, educar, não para fazer desfiles ou bagunça. Vivemos em sociedade, não é cada um por si. Precisamos pensar no vizinho ao lado antes de ligar o som a todo volume porque talvez ele possa não gosta da mesma coisa que "eu". Isso vale para a feira: para proliferar a cultura.
Lembrei de um projeto muito legal que se chama "livro de rua": http://www.livroderua.com.br/index.cfm?operacao=ajuda
só acho um tanto difícil implantar um projeto desses aqui porque é bem capaz de jogarem o livro no chão ou em um canal como se fosse lixo, ou então "levar para casa como se fosse eu", ou seja, roubar. É esse o atual nível de cultura da maioria de nós, paraenses. INFELIZMENTE! Que tenham mais ações educativas errádicas e punições sérias para aqueles que não nos levam a sério.

Fabiola

Bruno Cantuária disse...

Eu sei de uma história de livros jogados no canal da Bernardo Sayão. Livros caros de Psicologia, muito caros. Emprestados por uma professora. Roubados pq estavam dentro de uma mochila. O celular, a carteira, o dinheiro, relógio, pulseiras, cordão, tudo isso sumiu. Somente os livros foram encontrados... na vala da Bernardo Sayão.

Murilo Rodrigues disse...

Ao menos o Bruno provocou uma polêmica pertinente.
Em seu texto, Cantuária não foi preconceituoso ao afirmar as desagradáveis desventuras durante a feira, ele tem razão quanto a isso! Ele foi equivocado quanto as suas soluções de caráter elitista, esquecendo que temos amigos pobres, que compartilharam as mesmas carteiras que nós na UFPA. A eles deveria ser cerceado o direito a folhear livros durante a feira? Creio que a campanha eleitoral fez com que a feira se transformasse em uma atividade menos cultural e mais populista. Trazem o que a grande massa quer ver e não o que seria melhor para propiciar a essa massa. O governo é responsável pela formação do público, deveria ter uma atividade continuada de estímulo não apenas a leitura, mas também a escrita. Os professores devem provocar essa inquietação pela leitura/escrita, e deveriam ter esse compromisso estruturado pelo governo, o que não acontece! Mesmo que tivessem, a feira de 2010 estava caríssima!!! Na feira 2009 teve o estande da EDUSP, onde pude comprar diversos títulos com descontos imperdíveis de até 50%... me afoguei no cartão de crédito... Esse ano não vi nada imperdível pelo preço, tampouco por novidades na minha área específica (Artes/Artquitetura)... Concordando com a Fabiola... pra quem queria comprar livros a internet foi a melhor opção!

Bruno Cantuária disse...

Eita semestre maldoso, todo mundo mais enrolado que briga de cobra!!! Mas a partir daqui poderemos mobilizar algo para a melhoria que todos nós queremos para esse evento. Obrigado pela atenção e diálogo que tivemos.