sexta-feira, 29 de março de 2013

Diretores do Cinema Para (Re)conhecer: Ingmar Bergman





Foto: Ingmar Bergman (frente) e Sven Nykvist.




Para iniciar uma fase de apresentações de diretores de cinema legais junto com o NovasMedias!?, decidi começar pelo maior nome para meu aprendizado visual na tela, Mr. Ingmar Bergman, egresso do cinema sueco. 

Considerado pela crítica especializada um dos mais geniais e versáteis cineastas, Bergman trouxe marcadores do teatro e da psicanálise para formar sua filmografia densa e esteticamente bem cuidada. 


A importância de Bergman é enorme, visto vários intelectuais de peso buscarem nele uma de suas referências – caso do cineasta Woody Allen, por exemplo. Allen, mais especificamente, trouxe Bergman para inúmeras obras de sua fase mais dramática, como é o caso de “A Outra”, “Interiores” e “Sonhos Eróticos de uma Noite de Verão”. Por sinal, este diretor americano também trabalhou com um dos atores prediletos do sueco, Max Von Sydow, e com um dos maiores diretores de fotografia da história do cinema, o amigo e parceiro profissional de Bergman, Sven Nykvist (ah, esse trabalho com o diretor de fotografia se deu no filme “Crimes e Pecados”, de 1989).

Bem, Bergman teve seus pés fincados em roteiros confessionais, dialógicos e de tirar o fôlego, e seu lado dramático sempre foi o carro chefe de sua filmografia, mesmo tendo trafegado por vários estilos, com atores primorosos os quais tentaram investigar nuances da psiquê humana. Na minha opinião, Bergman adorava abordar frustrações, com personagens ora cruéis, ora frágeis; situações as quais beiravam o limite da suportabilidade; ensaios sobre crises religiosas; e eventos em torno de humilhações em situações sociais, grosso modo.

Sua carreira se equilibrou, inteligentemente, entre comédias (“Sorrisos de uma Noite de Amor”, talvez um dos meus preferidos do cineasta, “Para Não Falar de Todas essas Mulheres”), pastiches (“O Rosto”, “O Olho do Diabo”), dramas de memórias (“Morangos Silvestres”, “Juventude”), ficções de abordagem psicanalítica (“Persona”, “Cenas de um Casamento”, “A Hora do Lobo”, “O Silêncio”, “A Paixão de Ana”, “Face a Face”), filmes de época (“O Sétimo Selo”, “A Fonte da Donzela”), investigações sobre a presença/ ausência de Deus (“Luz de Inverno”, “Fanny e Alexander”, “Através de um Espelho”), teatro filmado (“Depois do Ensaio”) e até ópera filmada (“A Flauta Mágica”). Todos seus filmes são elegantemente imperdíveis, e acredito que uma vida está dividida entre o antes e o depois de algum filme deste monstro da arte.

Suas musas foram várias, como é o caso de uma de suas esposas, Liv Ullman, e de algumas de suas atrizes favoritas do cinema sueco – Bibi Andersson, Harriet Andersson, Ingrid Thulin, com as quais, dizem os comentários, teve affairs –, e trabalhou uma única vez com Ingrid Bergman (em “Sonata de Outono”), com a qual não tinha nenhum parentesco, ainda que seus sobrenomes fossem iguais. Os atores, não menos memoráveis, formam outro grupo bastante sedimentado, com Birger Malmsten, Max Von Sydow, Erland Josephson e Gunnar Björnstrand. E, por outro lado, Gunnar Fischer e Sven Nykvist foram os dois diretores de fotografia os quais caracterizaram muito bem o universo do diretor sueco e trabalharam durante quase toda a extensa filmografia de Bergman, dando ênfase ao close up, à fotografia minimalista e exigente por boas atuações. 

As premiações do diretor são tantas que nem dá para mencioná-las aqui sem ficar enfadonho (Palmas de Ouro, Oscars, Césars) – eu até precisaria de um post só para comentá-las. Sua premiadíssima trilogia do Silêncio (com “Luz de Inverno”, “Através de um Espelho” e “O Silêncio”) é, para mim, ao lado da Trilogia da Incomunicabilidade, do Antonioni, fundamental. Em todo caso, destaco, ainda, “Gritos e Sussurros”, o qual se mostra como um dos mais sufocantes filmes (com uma abertura arrepiante ao som de sinos), e “Persona”, seu projeto mais experimental e radical (filme o qual teve até um título horroroso e esquecido no Brasil: “Quando Duas Mulheres Pecam”).

A título de curiosidade mórbida, Ingmar Bergman morreu no dia 30 de julho de 2007, mesma data da morte do cineasta Michelangelo Antonioni (outro dos meus preferidos). Um dia triste para a sétima arte. Eu lembro que estava em São Paulo quando soube do ocorrido e lamentei a perda dos dois deuses.


                                                       Poster de A Hora do Lobo (1968)
 

10 Filmes de Ingmar Bergman

01 – Persona
02 – O Sétimo Selo
03 – Morangos Silvestres
04 – Gritos e Sussurros
05 – Cenas de Um Casamento
06 – Juventude
07 – Fanny e Alexander
08 – Sonata de Outono
09 – A Fonte da Donzela
10 – A Hora do Lobo
 


By John Fletcher


2 comentários:

Anônimo disse...

Qeria perguntar uma coisa. você consegue ver correlações entre existencialismo e os filmes de bergman? me parece que as produções dele iam bastante por este caminho. obrigado

Lucas C

John Fletcher disse...

Lucas C,

Não seria correto da minha parte falar sobre Bergman e o existencialismo, pq meu conhecimento sobre o assunto é muito pequeno.

Contudo há uma grande abordagem lacaniana em suas obras. E nesse ponto eu acho mais seguro de se pensar. Há, por outro lado, tbm um toque fenomenológico muito interessante.

Acho que pensá-lo a luz de Lacan, Freud e Heidegger é um primeiro passo.